quinta-feira, 20 de abril de 2017

Crônica de uma madrugada em Paulínia




Crônica de uma madrugada em Paulínia

Pouco mais de 3 horas dá madrugada.
Acordei sem razão. Nenhum motivo aparente. Virei de lado, esperando voltar a dormir.  Suava. Acreditei seu o calor que me impedia a voltar a dormir. Liguei o ventilador e procurei uma posição confortável.
O calor persistiu. Aproximei o ventilador. O vento era quente. Outra sensação parecia incomodar. Fui ao banheiro. Bebi água.
Pensamentos variados e sem importância passeavam pela minha mente.
Quando me dei conta planejava o dia por vir e os demais da semana, era só segunda feira.

Minha esposa levantou. Foi ao banheiro. Levantei também, fui beber água novamente. Ela voltava, eu ainda indo. Ela assistiu e deu um grito. Tentei acalmar, ela ficou brava. Ela voltou para a cama. Bebi água, voltei para a cama.
Uma luz distante me chamou atenção. Será que esqueci acessa? Levantei, ouvi um barulho de copo, minha filha também levantou. Voltei para a cama, ela também.

Olhei o relógio, já passam das 4 horas.
Sem saber o motivo dessa insônia, resolvi levantar. Peguei uma roupa no escuro.
Resolvi andar de bicicleta.
Não faz um mês, fui assaltado a mão armada e levaram minha bicicleta.
Por isso hesito em sair. Me encorajo e levo a cachorra junto.  Sua companhia não dura muito. Dois quarteirões e ela resolve voltar sozinha para casa.
A rua vazia. Vejo um porteiro trabalhando, um frentista solitário no posto vazio. Nenhum carro passa.
Vou pedalando e a avenida chega ao fim, as ruas iluminadas me  animam a seguir adiante. Vejo um carro solitário, utilitário, o motorista com cara de sono, saindo para o trabalho, ou talvez voltando, depois de uma viagem longa.
O receio vai passando. Um segurança de hotel faz sua ronda. Um Fiat 147 passa, um homem simples dirige. Não vi nenhum ônibus passar ainda.
Ninguém a pé na rua.
A delegacia de polícia parece vazia.Nenhuma luz acesa. Um carro no estacionamento dá a impressão de que um policial deve estar de plantão.
Várias lojas estão com a luz acesa, mas não tem ninguém lá, as portas fechadas. No supermercado, um segurança anda de um lado para o outro para espantar o sono.
Ao passar perto de um lago, quase atropelo duas capivaras, estavam no meio das rua e saíram em disparada.
O susto passa, e tenho que desviar de um buraco no acostamento.
Vejo um ônibus passar. 3 passageiros.
A rua vazia deixa o motorista tranquilo.
Alguns minutos depois, o primeiro ônibus intermunicipal sai da rodoviária, uma passageira. Ela chegou de carona com seu marido, em um Escort cinza. Não pode se dar ao luxo de esperar o próximo ônibus.
Avisto um condomínio de casas ao longe. Algumas casas já acendem algumas luzes. O sol ainda não saiu, mas eles tem que sair.
Um prédio alto tem uma janela solitária acesa, uma mulher olha pela janela, encara o horizonte, como se buscasse forças no infinito para se mexer. Pede forças para Deus: mais uma semana pela frente.
A Páscoa passou. O feriado prolongado também. Não que isso fizesse alguma diferença, pois passei boa parte dele trabalhando. Os muçulmanos também não estão preocupados com esse feriado prolongado e esses trabalhadores que passaram a madrugada na labuta também não aproveitaram, talvez tiveram tempo de refletir sobre o sacrifício Dele.
A humanidade sacrificou O único ser perfeito que passou pela Terra. Preferência por Barrabás, até o dia de hoje: quem salvaria o homem que dá a outra face, que anda com prostitutas, com aleijados e pecadores?  
Ensinou o amor, entregou sua vida para nos salvar. E não dedicamos um fim de semana para agradecer, é melhor ir para a praia, descansar em casa, ou assistir um filme.
Já é possível ver mais que um carro ao mesmo tempo na rua. Um carro popular, outro, um sedã médio. Um estudante chega no ponto de ônibus. O que será que ele vai aprender hoje?
Um caminhão entrega o café de manhã na delegacia.
Um cachorro sai em disparada da frente de uma casa, late e me persegue. 20 metros e então desiste.
Um homem sai para fazer caminhada. Um senhor passeia pela calçada em outra rua.
3 mulheres caminham apressadas em direção ao ponto de ônibus.
Uma moto encosta no posto de gasolina, um senhor enche o pneu​ de sua bicicleta.
Mais carros passam.
Os trabalhadores vão saindo de suas casas.
Muitos caminhões de produtos químicos e  combustíveis vão passando.
Uma van escolar passa rápido, parece atrasada. Sai em direção a rodovia, deve começar a linha em outra cidade.
A frequência  dos ônibus começando a aumentar, já não consigo contar os passageiros, o motorista tem pressa.
Me dei conta que também preciso me apressar, daqui a pouco, eu também vou trabalhar.
Enquanto me aproximo de casa, as pessoas se aproximam do ponto de ônibus, os carros se aproximam um dos doutros.
Acorda Maria bonita, levanta e vai fazer café. O dia já vem raiando e a polícia já está de pé.
Por um instante, fico feliz, só vi trabalhadores, cuidando de ganhar o pão de cada dia.
Então desejo que sempre fosse assim. Sem polícia, sem ladrão.
Desejei que não houvesse o medo. Medo de ladrão, medo de polícia. Medo que o presidente tenha vindo debaixo do chão, que eu não tinha direito a pensão.
Quem sabe um dia, o  mais humilde fosse visto com o mais importante. Aquele que faz a roda girar. Aquele que produz, que faz acontecer. Mas o que vale é o que se tem.
Enquanto uns tomam ônibus, eu tomei banho, tomei uma roupa do armário. Tomei um café, tomei o ônibus.
E todos tomamos nossa dose de alienação coletiva, esperamos pelo melhor, e recebemos o pior.
Pior juros, pior emprego, pior salário.
Sinto em te dizer, mas a culpa é nossa.
A culpa é minha por não amar o próximo, por não  exercer a caridade.
A culpa é de todos nós pois não dedicamos um minuto para o outro. Julgamos, não perdoamos.
E todos acreditamos que vamos merecer o céu.